Startups: Zebras!

Matéria da gobacklog por Mariana Nathali de Negócios Digitais

Ano a ano, o número de startups no Brasil apresenta um crescimento de quase 20%, atingindo quase 13.000 startups mapeadas no país, segundo dados da Associação Brasileira de Startups.

O crescimento, ainda que pequeno perto de outros países, aponta para concentrações cada vez mais constantes de capital, oriundas de investidores progressivamente mais experientes e com conhecimentos sólidos a respeito do mercado.

Tais fontes de capital potencializam a ascensão da inovação, negócios tecnológicos e soluções digitais, que fazem parte de um ecossistema cada vez mais crescente, o das startups.

Todavia, o crescimento a todo custo, mas com duração limitada, a geração de retornos mal-sucedidos aos investidores, a necessidade de expansão agressiva em cima do capital arrecadado por parte das startups e o desalinhamento sobre a trajetória da empresa entre os fundadores e sócios de fundo de Venture Capital (VC), mostram que nem só de retornos positivos vivem as bilionárias startups, denominadas de Unicórnios.

A ideia do animal mitológico parece atrativa, mas o cronograma de crescimento dos unicórnios trouxe recentes questionamentos, por parte dos fundadores, a respeito de sua superestrutura de investimentos que encoraja a rápida expansão desse modelo de negócio e, em muitos casos, também acelera o seu encerramento.

Essa injeção de capital em empresas, em troca de participação societária, é a base de construção em que boa parte de empresas de inovação tecnológica foram erguidas. Mas, poderia existir outra forma de fazer negócios crescerem que não seja através de rodadas de capitalização?

A resposta é sim, e se apresenta na forma de outro animal: as startups zebras.

 

O que são Startups Zebras?

Startups Zebras são empresas focadas em crescimento sustentável, caracterizam-se pelo desenvolvimento de um negócio real, buscando o crescimento, mas não o fazem a todo custo.

Focadas não só na lucratividade, como também em uma causa, segundo Mara Zepeda, CEO Switchboard e uma das fundadoras do movimento, as zebras são empresas em preto e branco, existem por fins lucrativos e para sanar problemas sociais.

O resultado que apresentam não é único, tais empresas focam em amenizar impasses na sociedade e, também, crescer tendo sua própria fonte de lucratividade.

Assim, seus fundamentos se baseiam em desenvolver negócios que sejam reais, sem a visão de perturbar mercados em atuação, obtendo e demonstrando sua lucratividade e, ainda assim, ajudando a solucionar questões, sejam elas sociais, médicas ou ambientais.

Os EUA estão repletos de cases de zebras de sucesso. Como exemplo, a Switchboard, que fornece consultoria, plataforma comunitária e desenvolvimento profissional para equipes e instituições que envolvam suas comunidades.

Atendendo principalmente faculdades, escolas e organizações sem fins lucrativos, suas fontes de renda vem desde treinamentos, acessos a plataforma e avaliações.

 

O movimento Zebra

O movimento, criado e liderado por fundadores que buscam mais ética e inclusão, indo contra a cultura existente de startups e capital de risco, foi denominado de movimento Zebras Unite.

Iniciado nos Estados Unidos, mas já com adeptos em outros países, como Austrália, Alemanha e México, a Zebras Unite teve início com Mara ZepedaAniyia WilliamsAstrid Scholz e Jennifer Brandel, todas CEOs de startups dos setores de tecnologia, comunicação e moda.

O movimento das zebras surgiu quando as fundadoras de startups questionaram o modelo de capital de risco que domina o universo dessas empresas.

Criado em 2017, o movimento já possui uma comunidade online com alguns milhares de apoiadores, que incluem desde empreendedores a investidores. Hoje, a organização reúne 40 filiais e 1.200 membros ao redor do mundo.

O movimento zebra não só busca desenvolver empreendimentos sustentáveis, como encoraja a ética no setor, abordando também a necessidade da diversidade racial e de gênero nas empresas.

Aniya Williams, co-fundadora do movimento e CEO da Black e Brown Founders, uma organização que fornece a empreendedores conhecimento e ferramentas para lançar startups sem que estas dependam de capital de risco, aborda o fato de que menos de 2% do capital de risco se destina a empreendedores negros e latinos, mesmo que estes sejam a força de criação de negócios nos Estados Unidos.

Sendo assim, de acordo com Aniya, o modelo que incentiva muitos fracassos para poucos casos de sucesso, se tornando injusto com essa pequena parcela sem possibilidades de investimento externo.

O exemplo demonstra e exemplifica o impulso gerado ao movimento, principalmente, por grupos que têm lutado para adquirir financiamento aos seus negócios, como, os já citados, empreendedores latinos e mulheres empresárias, ainda que estes demonstrem capacidade de lucro e desenvolvam projetos com causas.

O movimento aponta que os princípios de uma empresa zebra se alinham a características de negócios liderados por mulheres. Quando conseguem o investimento inicial, diretoras tendem a correr riscos mais calculados e realizados a partir de análises mais detalhadas, preferindo a segurança, mas, em consequência, desenvolvem negócios em menor escala.

Assim, elas são responsáveis pelo desenvolvimento de empresas com premissas das zebras: sustentáveis e também lucrativas.

Ao reunir 10 anos de dados, analisando 300 empresas que investiram e quase 600 fundadores que se associaram ao longo desse tempo, a First Round, uma empresa de capital de risco, especializada em fornecer financiamento para empresas de tecnologia em fase inicial, descobriu que companhias fundadas por mulheres possuem um desempenho 63% melhor que empresas com equipes unicamente masculinas.

E, quando examinaram seus 10 principais investimentos, baseando no valor que criaram para os investidores da First Round, três das equipes possuem pelo menos uma fundadora no time.

Segundo um estudo da Boston Consulting Group, BCG, uma empresa de consultoria empresarial, startups criadas por mulheres recebem um aporte médio de 935 mil dólares, em contrapartida, 2,1 milhões de dólares são destinados a empreendimentos de liderança masculina.

Entretanto, companhias femininas geram maiores receitas. Para cada dólar investido, startups femininas retornam aos investidores 78 cents, contra a 31 cents de retorno gerados pelas companhias com fundadores do sexo masculino.

Dessa forma, promover a diversidade entre os empreendimentos se tornou parte importante dessa comunidade.

Por que Zebras?

A co-founder do movimento, Mara Zepeda, defende o seguinte, zebras são em preto e branco, isso remete, de forma metafórica, à apresentação de dois ideais simultâneos: lucro e propósito.

Como o caso da Semente Negócios, uma empresa brasileira de educação empreendedora que o objetivo é aumentar competências de inovação em grandes negócios. Seu apoio é voltado para startups, negócios inovadores e empresas de impacto, além de investir em fundos sociais. Uma empresa que lucra e contribui.

O segundo motivo vem porque, ao contrário dos unicórnios, zebras são animais reais, fugindo da ideia mítica de um animal inexistente.

Por fim, zebras são conhecidas em sua natureza por serem animais cooperativos e mutualistas, isso indica o quanto crescem e sobrevivem em colaboração, abdicando da competição e crescendo juntas. Isso faz das empresas zebras representantes de fundadores que tendem a receber a menor parcela de investimento de capital de risco.

O que são Unicórnios?

No mundo dos negócios, o animal mitológico traz referência a um grande feito. Unicórnio é uma empresa avaliada em 1 bilhão de dólares ou mais. O termo foi definido em 2013, por Aileen Lee, investidora de capital de risco e fundadora da Cowboy Ventures.

No ano, ela realizou um estudo constatando que somente 0,07% das empresas apoiadas por VC chegavam a ser avaliadas em U$1 bilhão, apenas um total de 39 empresas se encaixavam nesses requisitos, representando a ideia de que startups bilionárias eram extremamente raras. Hoje, de acordo com a CBInsights, são 451.

A quantia é arrecadada antes que suas ações vão a público e se torne uma IPO, Inicial Public Offering, ou seja, anteriormente a ter seu capital aberto na bolsa de valores.

Muitas empresas de tecnologia cresceram através do venture capital, o modelo de negócios que parte do seguinte princípio: empresas recém criadas arrecadam investimentos e usam o capital para crescer agressivamente.

A finalidade é abrir o capital da empresa ou vender a companhia, retornando aos investidores retornos exorbitantes.

Os já conhecidos nomes como Google, Uber e Facebook, iniciaram a partir dessa estrutura de investimentos. E assim surgem os denominados unicórnios.

O problema é, para cada empresa que consegue se tornar um unicórnio, há incontáveis que deixam de existir. O ocorrido vem em detrimento da perda do capital investido e em decorrente de um escalamento prematuro que foi imposto ao negócio.

Em razão deste fato que empreendedores se opuseram ao modelo, refutando a ferramenta do venture capital, que de acordo com a fundadora Mara, representa uma fração muito pequena de companhias.

As mudanças que ocorreram a partir dos manifestos e a criação de diferentes planos de financiamento foram aclamadas por até mesmo profissionais de VC. Muitos confirmam que o investimento em alto risco, de fato, não é o mais correto para muitas empresas.

Conforme descrito pela TechCrunch, um portal de tecnologia, startups e fundos de capital de risco, o seguinte alerta foi abordado:

O capital de risco não é a escolha certa para a maioria das empresas, mas quando bem utilizado, pode ser muito poderoso.

Por que é tão difícil criar Startups Zebras?

De acordo com os fundadores, investidores, fundações e líderes que apoiam o movimento, as empresas zebras são determinantes para a criação de bons resultados na sociedade.

No entanto, tais startups batalham para a sobrevivência por não terem um ambiente que seja favorável a sua criação, sem apoio que incentive a ideação desses empresas e, menos ainda, que as ajudem a atingir a maturidade.

Como maiores desafios, Zepeda, junto aos demais apoiadores, destacam cinco pontos:

O problema não é o produto, é o processo

Problemas societários não são unicamente solucionados com a construção de mais tecnologias, mas sim, com investimento no processo e no tempo necessário para ajudar empresas a adotar, executar e mensurar os resultados da implementação da inovação e das soluções tecnológicas.

Assim, o obstáculo é a dificuldade em investir nesse processo.

As empresas Zebra, geralmente, se iniciam por fundadores sub-representados

Zepeda afirma que 81% dos fundos de investimento são provenientes de patrimônio líquido pessoal, bens familiares ou conexões de network. O que faz com que 84% de empreendedores não tenham acesso a capital de risco e empréstimos bancários para que suas empresas sejam financiadas.

Dessa forma, o modelo de negócio pode favorecer empresas iniciadas por fundadores que encontram pouco espaço e oportunidade para crescimento.

Você não poderá ser, se não pode vê-las

Empresas zebra existem e são promissoras, mas, parte dos adotantes do crescimento a todo custo o fazem porque as provas de que é possível ser bem-sucedido financeiramente, enquanto se é comercialmente sustentável, não são tão visíveis.

A visibilidade das zebras ainda não é abrangente, não sendo um exemplo tão conhecido para que influencie proprietários a imitarem.

Os adeptos do movimento idealizam a possibilidade de mais empresas de investimento alocarem porcentagens de fundos, mesmo que pequenas, para experimentos com zebras.

Como a Indie Ventures, uma empresa de investimentos fundada para financiar e dar suporte a negócios reais que produzam por um propósito e possuam fundadores focados em seus clientes, receita e rentabilidade e não, unicamente, em investimentos.

De acordo com dados levantado pelo fundo, em média, as empresas que apoiam aumentaram a receita acima de 100% no primeiro ano do programa e cerca de 300% após 2 anos do investimento.

Logo, eles acreditam que as empresas têm a possibilidade de prosperar, em escala, desde que foquem no crescimento da receita em vez de levantar outra rodada de financiamento. O objetivo da Indie Ventures é ser o último investimento que os fundadores precisam tomar.

As Zebras estão presas entre dois paradigmas: sem fins lucrativos e com fins lucrativos

Para os jovens negócios que buscam lucro e propósito, as estruturas existentes podem ser muito caras.

E, muito tempo passa a ser perdido na busca de investidores que se alinhem às premissas de uma empresa zebra. Sendo este um grande problema tanto para fundações, filantropos e também para os investidores.

De um lado, investidores possuem receio com o modelo alternativo, do outro, as empresas não conseguem provar sua funcionalidade, porque não encontram quem decida os financiar e, assim, possam ser testadas.

Outro ponto abordado é o fato do sistema tributário não reconhecer um meio termo, ou o negócio é admitido como uma empresa de fins lucrativos, impostos, ou sem fins lucrativos ,deduções. O que causa insegurança aos investidores em potencial.